Até quando?

Ana Veloso
Jornalista, colaboradora do Centro das Mulheres do Cabo, doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco e empreendedora social Ashoka

O sociólogo francês Pierre Bourdieu define o poder simbólico como “poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem” (BOUDIEU, 1998). Mas, e quando um segmento dos programas policialescos brasileiros expõe as chagas das vítimas de violência de forma sensacionalista e em busca de pontos de audiência, de forma consciente, não percebe que o exercício de tal poder acaba por ferir os direitos humanos? Vale tudo na busca da “suposta” verdade jornalística?

Como telespectadora e cidadã, fico constrangida e indignada ao presenciar cenas de certas produções exibidas pela imprensa. É muito desalentador constatar a degradação da função social do jornalismo.  Já vi repórter perguntando,  a uma mulher agredida pelo marido (que exerce a profissão de borracheiro): “ele já deu uma borrachada na senhora?”. Em outro vídeo, um jornalista pergunta, para uma menina que havia sido abusada sexualmente: “como foi que ele fez com você? Ele pegou em qual parte do seu corpo”. Em outro momento, um profissional discursa, ao comentar um caso de abuso sexual, sobre a função do hímen feminino.

Até quando a sociedade brasileira irá abrir mão de controlar socialmente os meios de comunicação? O conceito de controle social pode ser compreendido, de modo simples, como uma das estratégias que a população pode utilizar para promover o acompanhamento, avaliação e monitoramento da mídia. Trata-se de um dos pilares do exercício do direito humano à comunicação. Em uma nação democrática, o público deve ter o direito de produzir, veicular, acessar e analisar a programação ofertada pelos media.

Ao contrário da censura, o controle social não ocorre anterior à veiculação dos conteúdos. Ele se dá posteriormente, quando o público faz uma leitura crítica dos temas, assuntos e abordagens. Dessa forma, ressalto, a liberdade de expressão não será tolhida. No Brasil, hoje, menos de 10 famílias têm plena liberdade de expressão e produzem o que 180 milhões de habitantes irão acessar nos meios de comunicação.

Não podemos permitir que o argumento da liberdade de expressão seja usado por aqueles/as que utilizam tal poder para violar outros direitos humanos. Essa liberdade não deve ser um passaporte para a reedição de preconceitos e opressões. Ela prevê a responsabilidade de quem detém a concessão pública (no caso de rádios e televisões) e o direito legítimo da sociedade em exigir uma mídia comprometida com o interesse público e a cidadania.

Anúncios

3 respostas em “Até quando?

  1. Ana querida,

    Parabéns pelo blog! Está lindo e, claro, é muito oportuno e necessário. Muito bom saber que o seu talento e sua energia circularão com maior frequencia entre nós. Desejo-lhe muito sucesso.

    Beijo,

    Ana Paula

  2. Ana, fui remetido a essa matéria pesquisando sobre gênero no site da SOS Corpo, partilho de suas opiniões, só que não consigo ver como se daria na prática o processo de “implantação” do regulador social, de quais estratégias você fala? A principio quando li as primeiras linhas do texto fiquei receoso que se tratasse de mais um texto camuflado em favor da censura, mas, como desenrolar do mesmo percebei a sensibilidade com que você utilizou as palavras, e compreendi, mas ainda não consigo vislumbrar como se daria essa “seleção” por parte da população( do inconsciente coletivo), dos conteúdos jornalísticos…….

    • Pietro,

      sua pergunta é muito boa. Vou ser bem sintética. Compreendo que há vários passos para que o controle social possa ser exercitado. Reconheço, contudo, que estamos tratando de uma tentativa de provocar transformações em processos de formação cultural e que remetem à própria construção social da realidade de um público que não conhece seus direitos. Não há uma “solução” imediata e pronta. É preciso insistir no debate de idéias e agir. Vamos, então, aos sete passos: (1) Implementação de disciplinas de direitos humanos nas escolas (com o direito humano à comunicação fazendo parte dos conteúdos); (2) Ampla formação de educadores, em todos os níveis, para o debate sobre os direitos humanos; (3) Implementação de cursos de leitura crítica da mídia nas escolas e universidades; (4) Implementação de conselhos de comunicação municipais, estaduais e Federal (já existe, mas, precisa ser reformulado); (5) Apoio, com fundo público específico, à implementação e manutenção de observatórios de mídia nos Estados e no âmbito federal (podem ser de iniciativa das universidades públicas, também); (6) Divulgação dos mecanismos legais e dos setores do Ministério Público que recebem e analisam denúncias de violações aos direitos humanos praticadas pelos meios de comunicação; (7) Estímulo à criação e manutenção de mídias sociais, comunitárias, independentes, alternativas, radicais e livres de modo a ampliar o número de vozes e discursos sobre o direito à comunicação circulando na esfera pública.
      Vamos continuar dialogando?
      Ana Veloso

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s