Quando o virtual reproduz o real

Ana Veloso
Jornalista, colaboradora do Centro das Mulheres do Cabo, doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco e empreendedora social Ashoka

O repórter chega à redação e fala para seu editor: chefe, temos uma pauta quente.
O chefe indaga: diz aí…
O jornalista responde: vende-se uma virgindade!
O chefe: isso não é notícia. Cadê o ineditismo? Não tem nada de novo!
O repórter explica: vende-se uma virgindade por 32 mil dólares, em um leilão, pela internet.
O chefe: por que você não disse logo, rapaz! Isso vende! Vamos apurar!

Uma jovem da Nova Zelândia, nos Estados Unidos, colocou sua virgindade a leilão na internet por 32 mil dólares. “A adolescente de 19 anos de idade ofereceu sua virgindade para quem pagasse mais no site http://www.ineed.co.nz usando o nome “Unigirl”. O mais intrigante nessa cena típica de nossa sociedade fast food é o fato de o proprietário do site, Ross McKenzie, ter afirmado, para a imprensa, que a ferramenta pode leiloar qualquer coisa, desde que isso esteja de acordo com as Leis. A coisa em questão é o rompimento do himem da garota, ou seja, o que biologicamente se convencionou a classificar como símbolo da permanência da virgindade de uma mulher.

No mercado da sociedade midiatizada, o anúncio dessa operação comercial deveria motivar frisson entre os veículos de comunicação? A publicidade planetária reforça, todos os dias, que as transações mais rápidas, seguras e modernas, são aquelas que ocorrem pelas redes virtuais. Os mesmos anunciantes não são aqueles que afirmam, para as mulheres reais do mundo inteiro, que o conceito de libertação feminina está atrelado aos dividendos que a venda de pernas, vaginas, bundas e peitos pode reverter para quem possui um bom código de barras?

Segundo Žižek (2002): “a realidade virtual simplesmente generaliza esse processo de oferecer um produto esvaziado de substância, do núcleo duro e resistente do real _ assim como o café descafeinado tem o aroma e o gosto do café de verdade sem ser o café de verdade, a realidade virtual é sentida como realidade sem o ser. Mas, o que acontece no final desse processo de virtualização é que começamos a sentir a própria “realidade real” como uma entidade virtual”.

Mas, não é isso que os “donos” desse mercado estimulam? A coisificação do ser humano? A multiplicidade da oferta de corpos mutilados e expostos nas prateleiras do supermercado eletrônico/digital? O que os grupos de mídia queriam? Agora, entendi: o estranhamento se dá pelo fato da jovem ter colocado seu “produto” em um site de leilões virtuais. Mas, a internet não é a maior potencializadora da “interação” em um mundo sem fronteiras? A globalização econômica não está alavancando a globalização da cultura? Mas, de qual cultura estamos falando? A do consumo de todos os tipos de bens!

Para os (as) que estão achando o artigo moralista, ressalto que, aqui, não há nenhum juízo de valor sobre a atitude da jovem em querer usar sua liberdade e vender a virgindade. O questionamento se dá em relação ao estardalhaço que tal transação comercial causou junto aos meios de comunicação. Afinal, não consegui entender a razão de tanta polêmica em torno do negócio. Os (as) leitores (as) que tiverem mais informações acerca do motivo da aflição da mídia diante do caso, por favor, elucidem.

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