Mais violência de gênero

Ana Veloso
Jornalista, colaboradora do Centro das Mulheres do Cabo, doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco e empreendedora social Ashoka

Faz de conta que o ano de 2010 começou, hoje, 17/02. E iniciou mal para as mulheres. As primeiras notícias são assustadoras, embora os órgãos de segurança apontem a redução dos índices de criminalidade no carnaval.

Diante do aumento de 29% dos assassinatos de mulheres, em 2009, não podemos ousar, nas nossas rodas de diálogo, cinicamente falar em “fatalidade”, ou que a as vítimas estavam “no lugar e hora errados”.

Não dá mais para a sociedade aceitar o argumento: “as mulheres estão morrendo mais por conta do envolvimento com o tráfico”.

O que dizer para os familiares das duas jovens brutalmente assassinadas em Pernambuco nos últimos dias? Essas duas “justificativas” serão reproduzidas como “adequadas para o momento”?

Vamos aos fatos: dois homicídios chocaram a população. No primeiro deles, uma funcionária de um supermercado, em Jaboatão dos Guararapes, foi estuprada e assassinada ao sair do trabalho. No segundo: uma turista alemã foi morta quando passava as férias e a folia de momo com marido e filho, no Recife.

A imprensa noticiou que houve sinais de tortura nos dois casos. Tal informação denota crimes de ódio e cristalinos sinais de persistência da cultura patriarcal, da representação de um sistema secular perpetuado através do medo, da opressão e da dominação do masculino sobre o feminino.

Os criminosos não queriam, apenas, tirar a vida. Para exacerbar o poder do macho, do senhor, de legítimos donos dos corpos das mulheres, eles tiveram que demarcar, com o uso da tortura, seu espaço de controle absoluto sobre a vida e a morte das vítimas.

Até quando as mulheres permanecerão expropriadas do direito constitucional de ir e vir, do direito humano de ter uma vida plena, do direito de existir?

Até quando estarão vulneráveis diante da insegurança nas grandes cidades brasileiras?

Quantas Marias, Flávias, Simones e Joanas e tantas outras precisarão perder a vida até que o Estado brasileiro reconheça que a violência contra a mulher é uma questão prioritária e necessita de pesados investimentos?

Até quando permaneceremos esperando a implementação de políticas estruturadoras em áreas como educação, cultura, segurança e etc, para enfrentar os sintomas de uma sociedade doente?

Até quando os reflexos do patriarcado irão persistir em meio à omissão do Estado?

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2 respostas em “Mais violência de gênero

  1. Os valores estão invertidos. Gente de bem é tratada como bandido, e bandido, tem os direitos humanos para defendê-los. Mas quem nos defende? Os governos se importam em arrecadar impostos e beber whisky importado, enquanto a violência bate a nossa porta a todo instante. Quantas mulheres terão que morrer ainda?

    • Priscila, assim como você, essa é a pergunta que queremos ver respondida em ações concretas, eficazes e de reafirmação dos direitos humanos das mulheres. Principalmente porque tais direitos (os direitos humanos) são importantes porque atendem a todos e a todas sem distinções de sexo, raça, classe e/ou credo.

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