Quando a lesbianidade se transforma em mercadoria

Ana Veloso
Jornalista, colaboradora do Centro das Mulheres do Cabo, doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco e empreendedora social Ashoka

“(…) é sobre o sexo e o corpo das mulheres que se desenvolve com mais força a indústria da mercantilização do prazer e da banalização da vida”.
Maria Betania Ávila, 2003.
O Jornal da Tarde divulgou, semana passada, que o editor-chefe da Playboy, Edson Aran, gostaria de ter as duas participantes do Big Brother Brasil (BBB) Angélica, conhecida como Morango e Claudia, a Cacau, juntas, nas próximas edições. Aran também afirmou que o periódico não costuma colocar duas mulheres juntas em uma edição, mas, os executivos que controlam a revista estavam almejando muito que isso acontecesse.
Por qual razão a edição poderá contrariar a lógica editorial da revista? A exceção só é possível quando o mercado aponta para o lucro. Nada mais excitante para os consumidores do que “espiar”, nas páginas, a nudez de duas mulheres que supostamente estavam “em clima de paquera”, no BBB. Os mercadores são rápidos em avaliar: se a indagada lesbianidade das moças serviu para alavancar a audiência do programa, poderá render, também, um grande faturamento para o periódico.
A hipocrisia da população brasileira tem, na imprensa, seu espelho. Aliás, os meios de comunicação representam muito bem as contradições de uma sociedade homofóbica e lesbofóbica como a nossa. Em poucos instantes, sob a bênção do capital, a expressão da homossexualidade feminina vai deixar de ser visualizada como uma característica desviante ou repugnante: quando é capturada como negócio, serve para gerar lucro para um pequeno grupo de homens brancos, ricos e heterossexuais (os “donos da mídia”) e favorece a exacerbação do domínio do patriarcado.
Significa dizer que, desde que seja controlada e exibida de modo a oferecer mais prazer para os homens, a lesbianidade é absolutamente imagética e estética? Sob as lentes do periódico, a homossexualidade também vai poder deixar de emergir de forma quase subliminar (quando os/as personagens até ganham lugar nos folhetins eletrônicos desde que sejam discretos/as, ou seja: assexuados/as).
A revista vai pautar a homossexualidade feminina, por alguns instantes, não como um “desvalor”, mas, como algo “aceitável” de acordo com o enquadramento ofertado pela moldura das indústrias culturais. Resta saber: é só assim, que a lesbianidade é aceita? Quando é esvaziada de sentido e empacotada como um produto midiático ao assumir a condição de mercadoria.
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4 respostas em “Quando a lesbianidade se transforma em mercadoria

  1. Excelente artigo! Esse é já um antigo fetiche masculino sobre a relação sexual entre duas mulheres o que foi de certa forma explorado no próprio programa, mas como uma das moças foi logo eliminada, agora a revista recupera a ‘espiadinha’, com a bênção do capital, como bem expressou a autora.

    • Isso mesmo, Suely! Os corpos das mulheres e sua sexualidade sempre apropriados pela articulação entre o patriarcado e o capitalismo. No caso em questão, a eliminação da segunda moça (Cacau), na semana passada, do BBB, reacendeu o debate sobre as intenções da revista em publicar a nudez das duas protagonistas. Vamos continuar vigilantes! Beijos, Ana Veloso.

  2. Professora!

    Percepções assim tentam sanar certas feridas históricas e persistentes.
    Além de padecermos a um mercado, que por si só nos”engaja”numa condição de produto, ou de “Os Consumidores”, ainda temos que aceitar o machismo comandando muitos setores industrio culturais. Brincando banalmente, com a necessidade corpórea e pessoal que se desenvolve num relacionamento afetivo,a indúsria tem no fetiche sexual seus mais “prazerosos” produtos.
    O pior é que muitas entrevistas de boa qualidade, aparecem em revistas assim ou seja,quase ninguém lê.(as páginas ficam todas coladas).
    Como exemplo, na PLAYBOY de Anamara(bbb)
    existe uma excelente entrevista com Marcos Nanini. Leiam-na(se não tiver colada).

    • Prezado Tonfil,

      a indústria (o modo de produção do capital) ainda persiste a tentar mercantilizar todas as relações humanas. Todavia, o ser humano tem a capacidade de reescrever sua história e, ao criticar/refletir, pode transformar a realidade. Precisamos lutar contra a “atrofia do pensamento”.

      Ana Veloso

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