Qual o modelo de urbanismo e desenvolvimento que queremos?

Nataly Queiroz
Jornalista

Na semana em que o Brasil sediará a 5ª edição do Fórum Urbano Mundial, tive a feliz oportunidade de conhecer Dona Berô, pescadora da Ilha de Deus, no Recife. A senhora de 82 anos vê com medrosos olhos, a reforma da localidade, uma Zona Especial de Interesse Social (Zeis), iniciada no ano passado. “O que me dói é ter que ficar mais de um ano longe da minha casa e ver os pés de fruta-pão, os coqueiros que eu plantei serem mortos. Já chorei tanto. Já perdi mais de 3kg”, desabafa.

A reforma trata-se de um projeto de urbanização da localidade com a construção de casas, aterro de determinadas áreas e esgotamento sanitário. Obras indispensáveis e que chegam com um atraso dantesco. Mas a reflexão inspirada por Dona Berô é: qual o modelo de urbanização e de desenvolvimento que buscamos? Poucas pessoas na Ilha conhecem o desenho que dará forma às suas ruas; outras tantas responderam a um questionário – aplicado sem as devidas explicações do que se tratava e antes de anunciarem as obras – que “se pudessem” voltariam/iriam para um sítio ou algum lugar distante, onírico. Estas talvez não voltem às suas casas, pois foram inscritas pelos técnicos que aplicaram os questionários para receberem um valor simbólico de restituição pelas habitações e por uma vida depositada naquele local.

“Morava na Mustardinha e vinha, muitas vezes, chorando no caminho porque o chão era quente e não tinha sapato. Daqui tirei o sustento dos meus filhos e comprei um barraquinho para cada um”, afirma Dona Berô que faz questão de dizer que confia muito no governador, mas não “naquelas pessoas que entram e saem da Ilha”. O senso de pertencimento e a cultura de uma determinada localidade devem ser considerados quando se investe em obras de urbanização. Isto porque as iniciativas urbanísticas seguem na direção do desenvolvimento. No entanto, o desenvolvimento local só se concretiza se for baseado em preceitos democráticos, dialógicos e inclusivos. Ou seja, negociados com a comunidade.

A habitação de interesse social e outros investimentos que garantam a qualidade de vida das pessoas, assim como o acesso à cidade são assuntos que exigem reflexões profundas. Quais são os mecanismos para se construir uma cidade inclusiva, participativa e eqüitativa? Como têm funcionado os canais de diálogo entre sociedade civil e gestores para se discutir o acesso à cidade? O que o direito à habitação tem a ver com desenvolvimento? Levarei estas e outras perguntas à Cidade Maravilhosa. Espero voltar com outras tantas questões para continuarmos a discussão em breve.

Para saber mais sobre o Fórum Urbano Mundial: http://www.unhabitat.org/categories.asp?catid=584

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2 respostas em “Qual o modelo de urbanismo e desenvolvimento que queremos?

  1. Muito bom. Sensato, sensível, justo. Como recusar intervenções que asseguram condições decentes para as pessoas morarem? Ao mesmo tempo, como ignorar memória, laços afetivos, história? Todos nós somos obrigados, de um jeito ou de outro, a deixar coisas para trás, esquecer, abrir mão, desapegar. É importante passar por isso – não sabendo lidar com a transitoriedade de tudo, a vida é só sofrimento. Mas as perdas tem de ser tratadas com respeito. Mesmo que haja um ganho na troca de uma moradia precária, insalubre, insegura por outra mais adequada, há uma perda, um luto. Outro dia, um colega contou que teve gente que morreu de “banzo” depois que seu lugar foi alagado por Sobradinho… A gente pode fazer uma despedida, uma passagem… Resguardar o que der de memória, história… Preservar laços de amizade, enquanto vai dando jeito (com atraso dantesco!) nas nossas cidades

    • Obrigada, Soninha! Sem dúvida, o questionamento é como se aplicam as políticas de habitação social. Se são democráticas, é preciso que sejam discutidas com a comunidade. Amplamente. Quem lutou tanto para permanecer em um pedacinho de terra, trabalhou muito e construiu suas coisas, suas famílias, seus laços em uma localidade morre de medo de ser separado da mesma…

      Soninha, gostaríamos de contar com as suas colaborações. Quando quiser, pode nos enviar textos, reflexões, etc. Um abraço!

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