“Não é justo fechar os olhos”

Ana Veloso
Jornalista, colaboradora do Centro das Mulheres do Cabo, doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco e empreendedora social Ashoka

As chagas da sociedade hipócrita, machista, sexista e patriarcal pernambucana estão, mais uma vez, expostas. Têm a expressão explicitada pela denúncia pública de sucessivos casos de violência sexual praticados contra meninas com idade inferior aos 14 anos. Não dá mais pra tapar o sol com a peneira. Não podemos mais ignorar a profusão de denúncias de crimes que, até então, eram praticados entre quatro paredes e relegados ao esquecimento, à ocultação. Hoje, há estudos que comprovam altos índices de gestações resultantes de estupros de crianças e adolescentes. Algo que é pra gerar pavor, dor e revolta. Algo que a população não pode mais ignorar e que revela uma das faces mais cruéis da devastação de centenas e milhares de vidas que estavam apenas começando. Como essas crianças e adolescentes poderão viver depois de tamanha monstruosidade?

Uma das primeiras exposições desse quadro de terror aconteceu quando a então “Rede de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes” realizou, em 2004, a campanha “Não é Justo Fechar os Olhos”, onde alertava para o fenômeno que assola as famílias de nossa sociedade. Naquela época, produzimos materiais de divulgação e organizamos uma grande ação pública para tirar o tema da invisibilidade. Funcionou, mas, o problema, infelizmente, continua grave.

Naquele ano, fomos às ruas para desvelar que a maior parte desses crimes sexuais ocorria no ambiente familiar. Mais: que a mídia, em lugar de colocar as questões como violações aos direitos humanos, geralmente apresentava as vítimas de forma sensacionalista, espetacular, sempre visando pontos de audiência. Alguma semelhança com o que observamos nos programas policialescos de hoje?

É certo que a prática do abuso sexual, do estupro, do atentado violento ao pudor, da exploração sexual comercial de meninos e meninas por pessoas próximas não é algo “novo”. Mas, sempre será estarrecedor, revoltante, repugnante. Não poderá ser “naturalizado” como “do privado”. Os crimes precisam ser investigados e devidamente apurados! Os/as culpados/as deverão ser enquadrados/as de acordo com a Lei.

Lembro da frase de Renato Russo: “que país é esse?”. Um país onde crianças e adolescentes, além de ter uma série de direitos negados (saúde, educação, cultura, esportes, moradia…), são presas fáceis, alvos preferenciais de uma rede de exploradores que não estabelece limites políticos, nem de credo (padres e pastores e outros ditos “religiosos” já foram flagrados praticando crimes sexuais contra esse público).

Não podemos, realmente, fechar os olhos. Não podemos dormir enquanto nossas crianças e nossos adolescentes estiverem com suas vidas devastadas pela violência e o abandono. O Estado brasileiro precisa ser responsabilizado. Os crimes podem ser até majoritariamente praticados em âmbito doméstico. Mas, as feridas são públicas. Demonstram aspectos cruéis de uma sociedade em conflito. Uma sociedade em estado de decomposição.

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4 respostas em ““Não é justo fechar os olhos”

  1. Ana, vou divulgar seu artigo nos sites internacionais onde atuo. Vamos gritar até sermos ouvidas.
    bjs

  2. vc viu q nao houve uma grande mobilização contra o aborto feito na menina q foi estuprada pelo padrastro?

    aos poucos as pessoas estão entendendo o que acontece na realidade nua e crua e que certas medidas tem q ser tomadas…

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