A Marcha do MST e o público (ainda) refém das linhas editoriais

Cátia Oliveira e Ivan Moraes
OmbudsPE

Dia de cão no Recife”, diz a manchete do Jornal do Commercio nessa manhã de terça-feira. Adiante, na matéria sobre o assunto, no caderno Cidades, o título também não alivia:  “MST invade o Recife e trânsito fica caótico”.

“O caos agora virou rotina” é a chamada da capa do Diário de Pernambuco sobre mesma Marcha do MST, movimento que paralisou algumas vias do Recife ontem, por duas horas, como estratégia para tornar visível sua pauta de protestos. Dentro do DP, a matéria é intitulada “Cidade refém de Protesto mais uma vez”. “Sem Terra fecham vias da capital”, é destaque, capa do caderno Grande Recife, da Folha de Pernambuco.

Os títulos dos jornais já dão mais que uma pista do que encontraremos no texto: o “fetiche do trânsito” se sobrepondo à reivindicações de direitos fundamentais.

A “explicação técnica” pode até fazer sentido. De tiragem que circula os 30 mil exemplares, os três grandes jornais pernambucanos são lidos principalmente por pessoas de classe média urbana, que locomovem-se de carro e que vêem no livre acesso às vias uma questão muito mais relevante que a morosidade no processo de reforma agrária. Esquece-se, porém, alguns jornalistas quando confundem o “interesse público” com o “interesse do público”.

As coberturas feitas pelos jornais parecem separar as pessoas em duas categorias: os que têm seus direitos ameaçados por esperarem em um  engarrafamento e aqueles que infringiram os direitos dos que estão nos veículos. Uma questão que muitos poderiam achar importante, como a própria situação da reforma agrária, passa longe do foco principal.

Os três jornais fazem opção clara por focar a paralisação do trânsito e o atraso causado pelo protesto, ao invés de esforçar-se para explicar os motivos que levaram os manifestantes às ruas e o teor das reivindicações como: atualização dos índices de produtividade dos latifúndios, a dotação orçamentária prevista para o Incra, para ações de reforma agrária entre outras questões.

Sem voz

Além do Jornal do Commercio nenhum outro jornal publica qualquer depoimento de militantes da base sem terra que participaram do protesto. Parece que falta a curiosidade de perguntar: “o que faz o senhor sair de sua casa para vir até aqui parar o trânsito?” Com milhares de pessoas nas ruas, certamente respostas interessantes viriam à tona. Mas a essa gente, como regra geral, não foi dado o direito à palavra. Não pertencem à classe que fica parada no trânsito.

E o outro lado? Há quanto tempo muitas dessas pessoas esperam por ver direitos garantidos? Os depoimentos das pessoas presas no trânsito e de agentes do estado são sempre privilegiadas em detrimento das falas de lideranças do MST ou participantes manifestantes. Também em menor número. Na Folha de Pernambuco há quatro falas se posicionando de forma contrária ao protesto, que antecedem a fala de Jaime Amorim, dirigente do MST em Pernambuco.

No Diário de Pernambuco, há três falas contrárias ao protesto – uma delas de tom legalista, que tenta deslegitimar a manifestação. A última (e isso é sintomático) frase do texto é uma declaração de Cássia Bechara (do MST), sobre o direito de protestar.

Onde estaria o equilíbrio que reza a cartilha de ouvir ambas as partes de forma igualitária? Mesmo sendo a imparcialidade um mito, é importante que a diversidade de visões sobre um mesmo acontecimento seja relatada por quem pretende fazer o bom jornalismo.

Informação e opinião

Apesar do titulo que flerta com o sensacionalismo, a reportagem do Jornal do Commercio é quem faz uma cobertura mais informativa e equilibrada, procurando trazer no primeiro parágrafo os motivos da manifestação. Contudo, não desenvolve-os e muitas vezes refere-se às ocupações como “invasões”. O JC também não “foge à regra” ao fomentar a divisão entre categorias. Mesmo que tenha colhido forte depoimento de lado sem voz, o jornal também publica uma fala emblemática de uma senhora transeunte:  “Eles deveriam protestar contra o governo e não contra a população”, diz a entrevistada.

Fica claro que o jornal evidenciou o fato dos observadores da manifestação se sentirem um grupo à parte, como se militantes sem terra também não fizessem parte da população.

Nos três jornais, as motivações do protesto acabam tornando-se vazias e, dentro do contexto da reportagem, servem apenas para que o leitor reflita apenas sobre o “principal problema”, que é o trânsito da cidade.

Dessa forma, quem é mesmo que se torna refém de quem?

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