O MST e a polifonia do pensamento único

Ana Veloso
Jornalista, colaboradora do Centro das Mulheres do Cabo, doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco e empreendedora social Ashoka

Sim, eles podem esperar 500 anos para ter seu direito humano a um pedaço de terra para viver e plantar, mas, os/as motoristas do Recife não podem “perder” duas horas em um engarrafamento por conta do protesto mais do que justo do Movimento dos Sem-Terra. Até que ponto a sociedade pernambucana não concorda com a polifonia do pensamento único que apenas aponta uma realidade parcial acerca do MST: de que são baderneiros, invasores, destruidores e vagabundos? As capas dos jornais do dia seguinte à manifestação pela reforma agrária demonstram essa reprodução do preconceito e de uma imagem criada com base em um instante de toda a luta histórica de um movimento social. Momento que fica cristalizado no imaginário popular e que atravessa e constrói, até de forma até violenta, o campo da ordem simbólica.

Afinal, quais são os critérios de noticiabilidade da imprensa? Com certeza, não são meramente técnicos! Por qual razão, a mídia prefere ignorar as bandeiras desse protesto, descontextualizando toda a organização desses/as trabalhadores do campo e expondo-os pinçando um instantâneo da sua trajetória? O abril é vermelho! Mas, o único ponto abordado pelas pessoas, nas ruas, foi o engarrafamento.  Um protesto que “abalou” o cotidiano daquelas pessoas que vivem no universo wireles.  Explico: seres que habitam em um ambiente climatizado, onde a internet é comum a todos/as e a realidade é plasmada por essas duas características da cibernética sociedade do consumo.

Os meios de comunicação, ao tratar o assunto como um produto a mais na prateleira do seu “museu de grandes novidades”, desconhecem que vivemos em uma sociedade-encruzilhada, conceito de Martín-Barbero (1987) que ajuda a entender os processos comunicacionais e sociais nos quais estamos inseridos/as: “Sobrecarregada tanto pelos processos de transnacionalização quanto pela emergência de sujeitos sociais e identidades culturais novas, a comunicação está se convertendo num espaço estratégico a partir do qual se pode pensar os bloqueios e as contradições que dinamizam essas sociedades-encruzilhada, a meio caminho entre um subdesenvolvimento acelerado e uma modernização compulsiva”.

Mas, os “novos sujeitos” para conviver nessa “fauna” precisam ter uma “identidade discreta”. O universo das realidades parciais funciona mais ou menos assim: você pode até ser do MST, desde que não ouse reclamar publicamente. Finja que não é trabalhador explorado, expropriado dos seus direitos. Se o fizer, que seja no seu “gueto”. A mesma máxima vale para os gays e lésbicas. Nada pode abalar o consenso fabricado em torno de uma realidade também construída. Nada que traga a “paixão pelo real” à tona, como diz Slavoj Žižek.

Ainda assim, fica difícil compreender por qual razão, na vida desses motoristas, pedestres e passageiros do Recife, que emergem como representantes dessa sociedade multifacetada, eclética, wireles e cimatizada, não cabe pensar sobre a importância política, social, material e simbólica que envolve o ato do MST!

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