Por que a culpa tem que ser sempre nossa?

Laís Ferreira
Estudante de Jornalismo

No carnaval desse ano, estava em um dos focos da folia em Olinda quando presenciei uma discussão de casal por causa de ciúmes. Não consegui entender o motivo da briga, mas, infelizmente, assisti ao desfecho: a jovem, de aproximadamente 26 anos, foi empurrada com força pelo namorado e caiu com o rosto sob o meio-fio, o que lhe provocou vários arranhões e um corte profundo próximo aos lábios.

Enquanto a moça estava à espera de um policial para conduzi-la à delegacia, um rapaz da minha família chegou mais próximo e disse “a culpa é dela. Ela estava desde cedo se insinuando para outros homens para fazer ciúme a ele. Ela gosta de apanhar”. Confesso que não sei se fiquei mais estarrecida com a violência sofrida pela mulher ou com essa afirmação. Quem é que gosta de ser agredida/o? Quem é que fica feliz ao ser vítima de violência?

Ao comentar algum caso de abuso sexual, agressão física ou qualquer outro tipo de violência contra mulher, não é muito difícil ouvir frases como “também, ela fica usando essas roupas curtas, só podia dar nisso”; “ela provocou, foi atrás dele porque quis”, “quem manda ficar na rua até altas horas da noite”, ou “mulher não pode sair sozinha”.

Por que a culpa tem que ser sempre nossa?

Dados de um levantamento realizado pelo Departamento de Polícia da Mulher de Pernambuco (Dpmul), publicados na matéria Mulheres: denúncia é maior aliada contra a violência,  veiculada pelo Diario de Pernambuco de 23/04/2010, apontam que 77 mulheres foram assassinadas no estado nesses primeiros meses do ano. Será que mais de 77 pernambucanas, (levando-se em consideração a subnotificação desses números) foram responsáveis pela própria morte? Será que as várias mulheres vítimas de abuso sexual, incluindo crianças e adolescentes, como a menina de 9 anos, do município de Alagoinha, e a menina de 10 anos, de Jaboatão dos Guararapes, que foram abusadas e engravidaram dos padrastos, desejavam isso para suas vidas?

Quando, em uma sociedade hipócrita como a nossa, a mulher é responsabilizada pelas situações de violência nas quais foi vítima, ou há algo muito errado na situação ou há algo muito estranho em quem a considera culpada.   É preciso reformular essa ideia de que o homem é um ser biológico e que não consegue controlar seus impulsos, cabendo à mulher o papel de “não provocá-lo”, de “não dar motivos”.  Já passamos da hora de confirmar na sociedade os direitos humanos das mulheres, que incluem, inclusive, o respeito.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s