Primeiro de maio: a barbárie presente em nosso cotidiano

Ana Veloso
Jornalista, professora de jornalismo da UNICAP, colaboradora do Centro das Mulheres do Cabo, doutoranda em Comunicação pela UFPE e empreendedora social Ashoka

Não era dia de finados. Era primeiro de maio. Dia da morte de um ente querido. Dia em que diversos trabalhadores informais assaltavam os transeuntes e visitantes que passavam pelas ruas entorno do cemitério de Santo Amaro. O cenário era, por demais, estarrecedor. Em meio à dor dos que sepultavam familiares, um batalhão de flanelinhas, vendedores de flores, coveiros e até vendedores de caixões estava a postos. E, por que não dizer, à espreita.

Logo eles e elas, em um dia em que deveriam refletir acerca de sua própria condição, se lançavam a explorar os que estavam em outra situação não menos triste: a de quem é obrigado a se despedir quando não quer dizer adeus.

E não foi, apenas, esta a minha visão. Lembrei de uma aluna, ao citar Bourdieu, na sala de aula, interpretando o livro “Sobre a Televisão”. Ela indagou: “mas, todo jornalista tem lentes? Tem sua visão mediada pela ideologia?” E eu, após pensar sobre a pergunta, inspirada no sociólogo francês, arrisquei: em alguns casos, tem uma lente ligeiramente ampliada. Em outros, desfocada. Tudo vai depender dos valores e/ou desvalores que traz em seu repertório.

No meu caso, por exemplo, pretendo figurar entre as jornalistas que buscam ter as lentes ampliadas pela necessidade de expor o que o ser humano, por vezes, naturaliza: a barbárie presente em nosso cotidiano.

Imaginem a cena…

16h do dia primeiro de maio, nas dependências do velório situado no cemitério de Santo Amaro, ao lado do prédio do Instituto de Medicina Legal (IML). Um odor insuportável, misto de corpos apodrecidos e formol, amontoados depois da greve dos trabalhadores do órgão. Na entrada do prédio do cemitério, um flanelinha anuncia: “madame, é três real”. Tratava-se do valor que ele cobrava para quem precisava usar o estacionamento em frente a um prédio que é público, em uma praça que é pública, mas, foi demarcada e privatizada pelos “trabalhadores informais” que “vigiam” os carros.

Enquanto estava atuando como protagonista dessa cena, ao lado, pude observar vários carros com som ensurdecedor, com um repertório que ia do brega ao forró em uma fração de segundos. Só falta, agora, relatar o que vi e ouvi do funcionário responsável pela manutenção do espaço onde os corpos estavam sendo velados, ao conversar com um vendedor de flores que aparentava desolação. “Meu irmão, o movimento, hoje, tá fraco. Parece que ninguém quis morrer no primeiro de maio. Só tem esse aí”. E saiu apontando para o caixão do meu ente querido.

Aos leitores e às leitoras que contestam as minhas problematizações diante do legítimo direito dos comerciantes informais, ressalto que, não está em questão, aqui, o ganha-pão dos que não têm emprego. A dignidade de um trabalhador não pode ser simplesmente qualificada dessa forma. O que estou questionando é o embrutecimento das pessoas diante da perda alheia. A naturalização de um comércio que envolve a dor de outrem. A mercantilização que gira em torno da morte de um ser humano. E a ausência de humanidade diante do sepultamento, no dia primeiro de maio, de mais um trabalhador.

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