Quem vive por inteiro não aceita nada pela metade

Ana Veloso
Jornalista, professora de jornalismo da UNICAP, colaboradora do Centro das Mulheres do Cabo, doutoranda em Comunicação pela UFPE e empreendedora social Ashoka

“Meias verdades. Meias atitudes. Meias bondades. Nada disso me interessa e eu não tenho pressa pra conferir.”
(A Diferença, Christiaan Oyens e Zélia Duncan)

Estava ouvindo a música da Zélia quando parei para pensar no livro do Slavoj Žižek, “Bem-Vindo ao Deserto do Real”, quando ele provoca: “A realidade virtual simplesmente generaliza esse processo de oferecer um produto esvaziado de substância, do núcleo duro e resistente do real _ assim como o café descafeinado tem o aroma e o gosto do café de verdade sem ser o café de verdade, a realidade virtual é sentida como realidade sem o ser. Mas, o que acontece no final desse processo de virtualização é que começamos a sentir a própria ‘realidade real’ como uma entidade virtual” (ŽIŽEK, 2003, p. 25).

Não é isso que estamos querendo analisar quando tentamos nos aproximar da experiência do autêntico real ao observar o comportamento das torcidas organizadas ao longo de mais um dia de tumulto durante um jogo de futebol no Recife? A insistente existência do brutal, da barbárie e da violação dos direitos humanos vai continuar sendo a tônica das manchetes dos jornais de amanhã? Estamos tão entorpecidos/as, enquadrados/as em nosso mundinho que permanecemos narcotizados pela aparência de uma realidade segura, dentro da banalidade de uma vida sem surpresas? Ainda despertaremos desses processos para vislumbrar um mundo em degeneração?

Até quando, eu pergunto, novamente, as mulheres vão continuar sendo assassinadas pela violência institucional de um Estado inoperante, omisso e incompetente? Conforme noticiado nesse blog, uma paciente que possuia doença crônica e corria risco de morte, não conseguiu ter sua gravidez interrompida no Rio Grande do Norte, em abril. A Maternidade Januário Cicco (UFRN) se recusou a realizar o procedimento e a mulher morreu no momento do parto depois de ter seu direito a um “abortamento assistido” negado. No Brasil, vivemos na era das “meias verdades”: segundo a legislação, as mulheres têm o direito ao aborto quando a gravidez pode oferecer risco de morte para a gestante.

Ao folhear os cadernos de política constato que, durante os mandatos, vivemos a era das “meias atitudes” e, em ano eleitoral, das “meias bondades”. Mas, não era esse o plano do país “em desenvolvimento” que vai sediar as Olimpíadas e a Copa do Mundo? Entre o Brasil virtual e o real tem um abismo que não para de crescer. Não podemos desvencilhar a realidade da ficção. A nação que exibe uma imagem “civilizada”, maquiada pelo marketing político, é a mesma onde proliferam os analfabetos funcionais, onde ocorrem centenas de casos de mortalidade materna, de exploração comercial de crianças e adolescentes, de assassinatos de mulheres, de trabalho doméstico sem direitos garantidos. É o mesmo lugar onde uma parcela dos integrantes das torcidas organizadas pratica violência e permanece em impunidade. Não dá para enxergar, apenas, uma “realidade parcial”. Quem vive por inteiro não aceita nada pela metade.

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