A cinza do descaso cotidiano que tudo cobre

Nataly Queiroz
Jornalista

“Quando será que aprenderemos que há certas coisas que só começaremos a perceber
quando nos dispusermos a remontar as fontes?” (José Saramago, O Evangelho segundo Jesus Cristo)

  Há aproximadamente dois anos, tive a oportunidade de visitar, juntamente com uma equipe de pesquisadoras e assessores parlamentares, uma maternidade referência no sertão de Pernambuco. Nela encontrei uma jovem gestante, de 24 anos, muito magra, que utilizava uma bata suja e gemia. Ao me aproximar, notei que sangrava e perguntei o que estava sentindo. Mal falava. Chorava e chamava pela filha. Por estar na sala de parto, imaginei que estivesse em trabalho de parto. Ela, moradora da zona rural, tinha procurado a unidade de saúde com febre e dores no corpo dias antes de nos encontrarmos. Foi atendida. Retornou para casa. Voltou à maternidade uma semana depois com dores na barriga e dizendo que o bebê parara de se mexer. A gravidez era desejada. Mas o bebê morrera.

Na maternidade, ela estava recebendo uma medicação, há alguns dias, para “expulsar o feto naturalmente”. Leiga, fiquei com várias dúvidas: por que não realizaram o procedimento de retirada do feto morto já que a jovem corria risco de uma infecção? Alguém investigou se havia alguma relação entre a medicação prescrita dias antes e a morte do feto? Por que colocá-la em uma sala de parto assistindo ao nascimento de outras crianças que lembravam a esperada menininha que nunca teria nos braços? Procedimento médico ou institucionalização da tortura em uma unidade pública de saúde?

Há duas semanas, uma gestante, também jovem, morreu no Rio Grande do Norte durante o parto. A gestação de risco não teria sido reconhecida como tal pela equipe médica de uma unidade vinculada à Universidade Federal do estado. A justiça, por sua vez, não teria aceitado a solicitação de interrupção da gestação por não entender que a má formação fetal diagnosticada poderia ser fatal para a mãe. No bate-rebate dos que decidem a vida e a morte e sob a poeira cinza do descaso cotidiano que tudo cobre, a família, pobre, não sabe se verá punição para quem deixou a jovem à espera da morte. A (má) atenção ao parto, no Brasil, é uma das principais causas de morte materna. Alguém, em sã consciência, argumentaria que foi vontade divina?

Os esforços para sensibilização dos profissionais de saúde, as novas políticas e o estabelecimento de normas técnicas foram avanços inegáveis nos últimos anos. Mas, também são inegáveis as consequências de um sistema cultural e educacional míope para os direitos humanos. Há alguns séculos, as universidades formavam técnicos e semi-deuses. As escolas eram para poucos. A cidadania era conseqüência da posse de bens materiais. Cidadania feminina seria um neologismo.

Avançamos? A educação passou a ser um direito universal, as mulheres conquistaram leis com a perspectiva de gênero. Ao mesmo tempo, o conceito de cidadania foi ficando cada vez mais atrelado à inclusão, quando o sujeito passa a ser partícipe ativo de uma sociedade, cuja base principal se alicerça no consumo. E agora? Ainda queremos avançar? Para onde? Como? Com quem?

Há dois dias, a imprensa local noticia o caso de uma adolescente que teve o rosto desfigurado por uma outra colega de escola. A agressão foi dentro de uma unidade pública de ensino. Com gilete, estilete e ponta de compasso, a garota teve o rosto cortado como o imaginário coletivo desenha o solo rachado do sertão. A cena se deu sob os olhares e sorrisos de outros estudantes. Ainda parece custoso aceitar a idéia de responsabilização compartilhada da sociedade pela formação das crianças e adolescentes. Os quadros brancos e os profissionais licenciados dividem esse labor com a mídia, com a rua, com a família. Poderíamos falar em uma atual banalização da vida? Juventude alienada? Mais um caso de Bullying? Ou será que estamos nos confrontando com o resultado da nossa inoperância e incompetência em lidar com a formação das nossas crianças e adolescentes, enfim dos seres que por estas bandas do universo habitam?

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3 respostas em “A cinza do descaso cotidiano que tudo cobre

  1. Sim, sem dúvidas vivemos em nosso país a banalização da vida a pouca importância pelos direitos e mais ainda pela educação dos jovens e adolescentes, estes hoje crescem expostos a todo o tipo de horrores.

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