Educação para a diversidade

Nataly Queiroz
Jornalista

No último dia 13 de maio, o Comitê Estadual pela Igualdade Racial (Cepir-PE) realizou um debate com 300 estudantes de escolas públicas da rede estadual sobre racismo e história. O evento aconteceu no cinema São Luiz, no bairro da Boa Vista, no Recife. O mote principal foi o filme brasileiro Besouro, que narra a história de escravos negros, na Bahia, na década de 1920. Nas primeiras cenas de carinho entre um professor de capoeira e seu aprendiz, os estudantes indagam, aos gritos, qual a orientação sexual (não com tamanho cuidado linguístico) de ambos. Duas cenas de estupro de negras também são ovacionadas pelo público estudantil. Um grupo de ialorixás sentadas na primeira fila se contorce para observar o que se passa atrás. Uma delas, já bastante idosa, me segura o braço e afirma: “muitos deles se olham no espelho e se veem brancos, por isso vão demorar a entender que nossa história é um rio de sangue. De sangue de negro”.

Os modelos pedagógicos historicamente estabelecidos tiveram uma considerável contribuição na padronização dos saberes, comportamentos e modos de estar no mundo. A visão dos estudantes enquanto tábulas rasas uniformes e a hierárquica autoridade dos sabedores docentes nos legaram traços que se perpetuam na atualidade. O produto final desta pedagogia intitulada de diretiva seria: “(…) alguém que renunciou ao direito de pensar e que, portanto, desistiu de sua cidadania e do seu direito ao exercício da política no seu mais pleno significado: qualquer projeto que vise a alguma transformação social escapa a seu horizonte, pois ele deixou de acreditar que sua ação seja capaz de qualquer mudança. O cinismo é seu jargão.”*

Este modelo tradicional estava associado a percepção de um saber natural: ou se era um gênio em formação ou alguém que nada teria a contribuir com o mundo das ideias. Durante muitos anos ouvi pessoas repetirem: “eu não dou para o estudo”. O que seria isso? Um dom? Tais pressupostos resistem em algumas práticas escolares. A não percepção dos estudantes enquanto seres de potencialidades, dos conhecimentos prévios e do multiculturalismo são alguns dos elementos que datam os conceitos tradicionais.

Durante muitas décadas, a educação pública era analisada a partir de uma perspectiva que não apreendia a conflitividade, mas a Lei nº 10.639, de 2003, que modifica a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, colocando como obrigatória o ensino de História e Cultura da África e Afrobrasileiras é um importante passo no reconhecimento da diversidade na escola.

A complexa formação sócio-cultural e identitária brasileira renegou a maioria de sua população, formada por afrodescendentes, e suas matizes culturais. Paralelamente também assistiu a vertentes teóricas que apontavam para a mestiçagem como característica de uma suposta democracia racial. Analisando os conflitos advindos da desigualdade racial, socialmente construída, Munanga vê, “no sistema brasileiro inteligência e eficácia, pois o mesmo é capaz de manter uma estrutura racista se hostilidades abertas, como as encontradas em outros países”.

Tal estrutura tem reflexo no sistema educacional e este, retroalimenta a pseudo-democracia racial nossa de cada dia. No entanto, as demandas sociais fazem emergir a necessidade de repensar a educação como assimilativa da diversidade cultural. O Brasil é o segundo maior país negro fora do continente africano, com uma enorme diversidade linguística e influencias de vários povos. A inclusão da perspectiva étnico-racial significa experimentar novos modelos formativos.

Por isso mesmo, urge que os estados e municípios implementem verdadeiramente a Lei nº 10.639, de 2003. O exercício da alteridade, o entendimento deste mosaico formativo não podem estar alheios ao espaço escolar. E tal prática não pode prescindir da inclusão da perspetiva étnico-racial, de gênero e de orientação sexual.

*Educação e construção do conhecimento, de Fernando Becker.

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