A excomunhão da freira

Fonte: Nicholas Kristof (em artigo no jornal O Globo)

Finalmente temos um caso em que a hierarquia da Igreja Católica está respondendo rigorosa e velozmente à acusação de delito. Mas o alvo não é um padre pedófilo. Em vez disso, é uma freira que ajudou a salvar a vida de uma mulher. Médicos a descrevem como uma santa.

A excomunhão da irmã Margaret McBride, de Phoenix, reforça tudo o que sinto de moralmente obtuso em relação à hierarquia católica. Espero que um clamor popular possa retificar essa desfaçatez.

A irmã Margaret era administradora sênior do St. Joseph’s Hospital, de Phoenix. Uma mulher de 27 anos, mão de quatro filhos, chegou ao hospital no final do ano passado, no terceiro mês de gravidez.

Segundo reportagens de jornais locais e relatos de alguns membros da equipe do hospital, a mulher sofria de uma séria complicação chamada hipertensão pulmonar.

Isto criava alta probabilidade de que a tensão da gravidez acabasse por matá-la.

“Nesse trágico caso, o tratamento para salvar a mãe iria requerer a interrupção de uma gravidez de 11 semanas.

A decisão foi tomada depois de consultados a paciente, sua família, seus médicos e a Comissão de Ética”, informou o hospital.

A irmã Margaret integrava essa comissão. Ela não quis discutir o caso comigo, mas o bispo de Phoenix, Thomas Olmsted, decidiu que ela estava “automaticamente excomungada” porque aprovou o aborto.

“A vida da mãe não pode prevalecer sobre a da criança”, afirmou um comunicado do escritório do bispo.

Devemos lembrar que a hierarquia da Igreja Católica suspendeu padres que abusaram de crianças e, em alguns casos, expulsou-os, mas normalmente não os excomungou, permitindo que continuassem recebendo o sacramento.

Desde a excomunhão, a irmã Margaret deixou seu cargo de vice-presidente e não consta mais na lista de executivos no site do hospital. Este informou que ela se demitira “a pedido do bispo” e que ainda trabalha em outro setor do hospital.

Fui informado sobre o caso da irmã Margaret por um conhecido que é médico do hospital St. Joseph’s.

Depois do que aconteceu com a irmã, ele enviou um e-mail para os amigos lamentando a excomunhão de uma “freira santa”.

“Ela é uma mulher gentil, humilde, de fala mansa, cuidadosa e espiritualizada, cujo lugar no céu foi reservado anos atrás. A ideia de que pudesse ser excomungada após décadas a serviço da Igreja e da humanidade literalmente me provoca náuseas. Cristãos verdadeiros, como a irmã Margaret, compreendem que a vida real é cheia de questões moralmente difíceis e rezam para que tomem a decisão certa à luz dos ensinamentos de Cristo. Somente um grupo de homens isolados e mimados, em túnicas douradas num balcão muito acima do resto de nós, poderia negar esses dilemas”, escreveu o médico, em sua mensagem.

Uma declaração do escritório do bispo não negou que a vida da mãe estivesse em perigo — embora notasse que nenhuma previsão médica é cem por cento segura. A implicação é que a Igreja teria preferido que o hospital deixasse a natureza seguir seu curso.

A hierarquia da Igreja Católica tem direito a seus pontos de vista.

Mas o episódio reforça a percepção dos seus líderes como rígidos, dogmáticos fora de contato com a realidade — e muito desconfiados diante da independência do pensamento das freiras americanas.

A irmã Margaret fez um julgamento difícil numa emergência, salvou uma vida e foi humilhada e punida por um raio fulminante emitido por um bispo que levou 16 anos morando em Roma e que devotou muito menos tempo ao serviço dos oprimidos do que a irmã Margaret. Compare as duas biografias e a da irmã Margaret parecerá muito mais com a de Jesus que a do bispo.

“Todo mundo que conheço considera a irmã Margaret a consciência moral do hospital”, escreveu Dr.

John Garvie, chefe do serviço de gastroenterologia do St. Joseph’s, em carta ao editor do jornal “Arizona Republic”. “Ela trabalha incessante e abnegadamente como exemplo vivo e campeã do cuidado apropriado e misericordioso aos doentes e agonizantes”.

Dr. Garvie disse-me mais tarde, num e-mail, que santa é a palavra certa para a irmã Margaret e acrescentou: “Ela é a personificação viva de Deus em nosso hospital. Ela sempre se certificou de que nós entendêssemos que estamos aqui para ajudar os menos afortunados. Realmente não há quem possa assumir seu lugar”.

Escrevi várias vezes sobre o abismo entre os líderes da Igreja Católica e as freiras, padres e leigos que frequentemente vivem a essência do Sermão da Montanha. Estes representam a grande alma da Igreja, que não tem a ver com vestes, mas com abnegação.

Quando uma hierarquia em sua maioria de homens idosos agride e excomunga uma freira reverenciada, que estava meramente tentando salvar a vida de uma mãe, a Igreja me parece quase tão fora de contato com o mundo real quanto esteve nos dias cruéis e corrompidos dos Borgia, no Renascimento

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