Muito além da miséria humana

Laís Ferreira
Estudante de jornalismo
maos
“Vi ontem um bicho, na imundície do pátio, catando comida entre os detritos. (…) O bicho não era um cão, não era um gato, não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem.” (O Bicho – Manoel Bandeira)

Há alguns dias me deparei com mais uma situação que bate à nossa porta diariamente, mas que muitos olhos insistem em não enxergar: o desespero de um ser humano em busca de condições mínimas para sobreviver. O meu personagem é um senhor de 53 anos, cabelos grisalhos, com um rosto marcado pelo sofrimento. Seu nome? Manoel Joaquim.

Ao vê-lo rapidamente, qualquer pessoa diria que se trata de um homem de meia idade como qualquer outro. No entanto, seus olhos arregalados, o extremo cansaço e o comportamento descontrolado eram resultado de 28 dias longe de casa, passando fome e frio, condições que o fizeram chegar ao limite do desespero.

“Ouvi na rádio que uma empresa aqui do Recife estava oferecendo 22 mil vagas de emprego. Como estou sem trabalho há seis anos, vim de Caruaru para tentar consegui uma vaga, mas eles só aceitam pessoas com até 35 anos, e eu tenho 53. Fui andando até a rodoviária para voltar para minha cidade. No caminho, três homens me espancaram, levaram meus documentos e o pouco dinheiro que eu tinha. Estou dormindo na rua e não como há três dias.  Pedi ajuda à prefeitura, mas ninguém se importou comigo. Como não tenho dinheiro, estou andando em busca de ajuda. Não sei direito o quanto andei, mas foi muito. Vim a esse hospital público tentar pegar carona em alguma ambulância que esteja levando paciente para minha cidade. Não agüento mais tanto sofrimento e humilhação. Quero apenas voltar para casa”, desabafou Manoel, com a voz embargada.

Impressionada e com os olhos cheios de lágrimas, o acompanhei até o setor de serviço social do hospital. Enquanto esperávamos, Manoel caiu em prantos. “Fui a todas as empresas de ônibus que fazem transporte para Caruaru, mas nenhuma delas me ajudou. Todos me enxotaram. Se fosse Roberto Carlos, o cantor, todo mundo abriria as portas e daria até passagem de graça. Mas eu sou apenas um pobre chamado Manoel Joaquim. Para eles quem é Manoel Joaquim? Ninguém!”

Após alguns minutos e um telefonema, a assistente social conseguiu uma carona para Manoel no ônibus da Secretaria de Saúde de Caruaru, que veio buscar alguns pacientes que faziam tratamento médico no Recife.  Depois de saber a notícia, nos encaminhamos para o local onde ele pegaria a carona. Antes, uma parada para que comesse alguma coisa. E entre um gole de café e uma mordida na fatia de bolo de rolo, Manoel não parava de repetir seu desejo de rever as netas. Após um obrigado acompanhado da esperança de voltar para casa, nos despedimos.

Nosso único encontro durou apenas 15 minutos, mas foi o suficiente para me fazer refletir sobre uma realidade sofrida. Assim como Manoel, de acordo com pesquisa do IBGE, quase 2 milhões de pessoas estão desempregadas só nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Belo Horizonte, Salvador, e Porto Alegre.  Até quando vários “Manoeis” terão que deixar suas casas em busca de emprego? Até quando estarão à margem dos interesses governamentais? Até quando iremos esperar por medidas que resolvam efetivamente o problema da falta de emprego no país? Até quando nós, brasileiros, iremos fechar os olhos para os problemas que batem à nossa porta?

Ao recordar meu encontro com Manoel para escrever esse texto, me lembrei que ele usava uma camisa do Brasil. Espero que, da mesma forma como ele e muitos outros brasileiros tem orgulho de vestir a camisa da seleção, também possam se orgulhar de morar em um país que ofereça condições dignas a sua população, e que essa mesma população não seja tão omissa e indiferente aos problemas dos outros seres humanos a sua volta.

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