A catástrofe e a cegueira da barbárie

Ana Veloso
Jornalista, professora de jornalismo da UNICAP, colaboradora do Centro das Mulheres do Cabo, doutoranda em Comunicação pela UFPE e empreendedora social Ashoka

“…Não lhe ocorreu que lá fora todos estavam cegos, e viviam.Teria ela própria que cegar também para compreender  que uma pessoa se habitua a tudo, sobretudo se já deixou de ser pessoa” (SARAMAGO, 1995)

Para quem nunca esteve desabrigado/a por conta das chuvas, a passagem do que algumas pessoas denominaram de “tsunami” por municípios de Alagoas e Pernambuco parece ficção. A realidade de quem perde familiares, amigos, todos os bens materiais e tem sua vida devastada pela falta de estrutura da maior parte de nossas cidades é indescritível. O cenário de guerra é aterrador. Persisto em refletir sobre essa situação por entender que tenho “a responsabilidade de ter olhos quando os outros perderam” (SARAMAGO, 1995).

Passei por algo parecido entre os anos de 1970 e 1980. Minha família perdeu tudo. Fomos viver, por algum tempo, junto com outras cem vítimas da enchente, em uma escola pública. Ainda recordo a tristeza, a falta de brilho no olhar das pessoas, o barulho ensurdecedor das crianças chorando, as vacinas doídas e de como o tempo passava devagar.

Fecho os olhos. Uma imagem ainda habita a memória: a marca da água quase no teto da casa velha e rachada. Mesmo assim, o retorno foi possível. Ela ainda estava de pé. Dava para reconstruir a vida com o que restou…

Podemos tentar encontrar explicações para o imponderável. Queremos, na força de buscar compreender a calamidade, trazer razões até sobrenaturais para o que ocorreu na Mata Sul de Pernambuco. “Alterações no ciclo das chuvas”, “reverso do efeito estufa”, “efeito do aquecimento global”… Já ouvi muitos discursos, nenhum “convincente” para traduzir um fenômeno natural que não poderia ter sido evitado.

Isso é fato. Assim como também sabemos que, se as cidades dispusessem de estrutura e tivessem contado com políticas públicas e investimentos na prevenção, os estragos talvez tivessem ocorrido em menor escala. O Estado, mais uma vez, falhou. Historicamente tem sido cúmplice da devastação. Vamos apelar para que, em um ano de “meias bondades” e “meias verdades”, como o eleitoral, o socorro chegue mais rápido…

Vivemos na era da “manutenção de uma ordem de classe” que empurra os saqueadores para a obtenção do lucro extremo, mesmo em épocas de catástrofe. Não consigo deixar de ficar indignada ao saber que há mercadores cobrando R$ 20,00 por uma garrafa de água mineral com 20 litros, lá na Mata Sul. Antes da devastação, R$ 5,00 era o valor médio praticado.

Nossa existência fluida está sendo atravessada por uma cegueira que não assola somente os que têm olhos de enxergar. Com certeza, mais devastadora é a cegueira oriunda da insensibilidade.  Até quando, vai imperar a exploração do homem pelo homem? Até quando a ausência de políticas públicas consistentes para cuidar da preservação da vida das pessoas, da natureza e das cidades vai propiciar tanta destruição? Até quando a cegueira da barbárie vai assolar, como uma epidemia sem controle e sem remédio, a vida de tantas pessoas?

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