A eleição de Dilma Rousseff e o descentramento da mídia

Ana Veloso
Jornalista, professora da UNICAP, doutoranda em Comunicação pela UFPE e bolsista da Ashoka

A chegada da petista Dilma Rousseff à presidência pode significar uma derrota para o patriarcado, o machismo e os fundamentalismos religiosos: três sistemas que alicerçam a reprodução dos desvalores que colocam as mulheres em situação de desvantagem no nosso país.

A sociedade brasileira sabe que a batalha não seu deu somente nas urnas. Contudo, não quero dizer que a presidenta, por ser mulher, vai transformar as seculares relações desiguais de gênero imediatamente. A compreensão de que uma mulher “pode” é incontestável, mas, por si só não vai desmontar os sólidos alicerces do sexismo. Será preciso que a sociedade brasileira esteja disposta a abraçar essa bandeira.

Dilma Roussef, talvez tenha que provar, todos os dias, a que veio. Ela, assim como tantas outras anônimas cidadãs ainda precisam demonstrar cotidianamente sua força e competência quer seja no Brasil, na Argentina, no Chile ou na Alemanha (só para citar alguns os países onde o exercício da democracia política levou as mulheres ao patamar máximo do poder no Estado).

Precisamos, urgentemente, de uma vez por todas, reconhecer que vivemos em uma nação onde a aliança perversa entre uma parcela da elite empresarial, política, religiosa e midiática tentou desqualificar uma candidatura com base na opressão de gênero.

Saímos de uma eleição atravessada pelas marcas da hipocrisia e pela intromissão autoritária de algumas facções religiosas nas questões políticas. E por muitas concessões de todos/as candidatos/as às imposições do segmento. Tal fenômeno não pode ser desconsiderado. Mas, precisa ser problematizado para que tenhamos avanços em todos os níveis, principalmente no entendimento de que o Estado brasileiro é laico. Devemos ficar vigilantes! A aliança entre o capital, o patriarcado e algumas expressões dos fundamentalismos tem sido extremamente violenta para as mulheres.

Contudo, um fato é inegável: o desfecho do pleito provocou um descentramento muito forte na direção de certos veículos de comunicação de massa. Demonstrou, de forma incomensurável, que alguns “tradicionais” jornais, revistas, rádios e emissoras de televisão não têm a mesma força de antes. Como diz o pesquisador Venício Lima, no campo da comunicação, os interesses particulares prevalecem sobre o interesse público. E, justamente por conta disso, nas eleições de 2010, a “velha mídia” tomou partido, errou, manipulou, mentiu, omitiu… E, novamente, foi nocauteada!

Se, para alguns/as, uma mulher se elegeu na sombra de um operário, para outros/as, o povo brasileiro demonstrou que ensaia fazer uma leitura crítica acerca do que recebe pelos media.E que pode não cair mais nas armadilhas quase sempre arquitetadas fora das redações…

Para além das contradições observadas ao longo do processo eleitoral que levou Dilma Rousseff ao planalto, temos a esperança de que, as possibilidades do alargamento da democracia que ela anunciou, durante a campanha e em seu discurso de posse, também passem pela compreensão de que a concentração dos meios de comunicação de massa representa o eco de uma herança nefasta. Trata-se da mais pura expressão da “censura privatizada” que impede a liberdade de expressão na cena da comunicação brasileira. Mais do que isso: denota o atraso e o conservadorismo em um universo onde é cada vez maior a apropriação social da internet, das redes sociais e das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC’s). Um arena pública mundializada onde milhares de cidadãos/ãs clamam pela ampla liberdade de expressão, de informação e de imprensa. Uma coisa é certa. É cada vez maior o número dos/as que querem assumir o protagonismo da sua comunicação, da sua vida e da sua história.

Vamos continuar sonhando e lutando pela construção de um mundo onde a liberdade de empresa de poucos/as não vai ter mais valor do que o exercício do direito humano à comunicação de todos/as.

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