“Sei que Dilma vai se sair muito bem”

 Por Juliano Machado, repórter da Revista Época

A ex-presidente do Chile diz que há uma tendência de mais mulheres no comando na América Latina

Entre todas as mulheres que presidem ou já presidiram países, a chilena Michelle Bachelet é uma das que mais adotaram políticas feministas. Preencheu metade de seu primeiro gabinete com mulheres (a proporção caiu depois), ampliou um programa nacional de creches e elevou a aposentadoria para as chilenas. Deixou a Presidência em março, com popularidade acima de 80% – pode-se dizer que só não continuou no cargo porque não há reeleição no Chile. Em janeiro, ela assumirá a diretoria da recém-criada agência ONU Mulher, destinada a promover a igualdade de gênero. Nesta entrevista por telefone, de Nova York, Bachelet diz confiar no sucesso do governo de Dilma Rousseff e pede às presidentes que tenham “perspectiva de gênero” na hora de fazer política. 

ENTREVISTA – MICHELLE BACHELET 

QUEM É
Nascida em Santiago, Verónica Michelle Bachelet Jeria tem 59 anos. Divorciada, tem três filhos (Sebastián, Francisca e Sofía) e dois netos (Damián e Lucas)

O QUE FEZ
Formou-se em medicina pela Universidade do Chile. Foi ministra da Saúde e da Defesa até chegar à Presidência, que ocupou entre 2006 e 2010. A partir de janeiro, será diretora da agência ONU Mulher

ÉPOCA – Dilma Rousseff será a 11ª mulher a ocupar a Presidência de um país da América Latina. É um sinal de avanço da região em relação à igualdade da mulher?
Michelle Bachelet –
A América Latina segue em dívida com as mulheres. Ainda não há uma representação suficiente no Parlamento em comparação com outras regiões do mundo. Ruanda (um país pobre e conflituoso na África), por exemplo, tem 56% de mulheres no Parlamento. No entanto, do ponto de vista de ter mulheres nas posições mais altas, a América Latina mostra um caminho importante para suas mulheres e para o mundo todo. E também para os homens – afinal, governamos para os dois.
 
ÉPOCA – A América Latina continua machista, então?
Bachelet –
Claro que sim. Ainda há muitos traços de um machismo antigo. Apesar de esses traços se manifestarem de diversas maneiras, o importante para a nossa região é esta tendência de mais mulheres em posições de comando. Sei que a presidenta Dilma conseguirá exercer muito bem sua função.

ÉPOCA – Dilma disse certa vez que gostaria de ser comparada à senhora como líder política…
Bachelet –
É um privilégio ter em mente que a nova presidenta de um país tão poderoso tenha dito isso. Como diretora da ONU Mulher, farei o possível para ajudar o Brasil e todos os países que governem por mais espaço às mulheres.

 ÉPOCA – Tanto a senhora quanto Dilma foram torturadas na ditadura, emergiram como políticas de esquerda e chegaram à Presidência. O que as levou a percorrer essa trajetória?
Bachelet –
Não poderia falar pela presidenta Dilma. Eu a conheço, mas ela dirá sua palavra. O importante é sempre falar a verdade, trabalhar bastante, escutar muito e cumprir o que você promete. É a melhor forma de saber se é possível confiar em alguém ou não.

ÉPOCA – Existe um estilo feminino de governar?
Bachelet –
Isso é uma discussão ampla. Nem todas as mulheres têm o que chamo de “perspectiva de gênero”. Nem todas têm uma ideia determinada para a política econômica ou social que dimensione o impacto para as mulheres. Habitualmente, não se leva em consideração o fato de que a situação da mulher se precariza mais fácil que a do homem. Nem todas as dirigentes têm essa perspectiva, e acho que seria muito bom se a tivessem. O ideal é assegurar o melhor para todos. Mas, como nem todos têm o mesmo nível de oportunidades, é preciso dar um pouco mais a quem tem menos. Há mulheres que optam por liderar com um estilo mais, digamos, político. Eu diria que é governar com códigos mais masculinos. E há outras, como eu, que decidem governar com suas próprias características, algumas catalogadas como femininas. Por exemplo, a capacidade de diálogo e de buscar acordos. Mas tudo isso é discutível. O importante é que as mulheres, em geral, buscam a paz e o diálogo em detrimento de um desejo de protagonismo.

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