A dor das mulheres não é obra de ficção

Por Ana Veloso

“Todos os dias ela caminha pela cidade. Louca por convicção,

execrada pela sociedade”

Estamira

Estamira está morta. Para quem não a conheceu, nem pela imagem retratada no documentário de Marcos Prado (http://www.estamira.com.br/), era uma mulher guerreira. Mais que um personagem, como rotulamos no jornalismo. Fico pensando se de tanto confundir fontes com personagens não esquecemos que estamos lidando com seres humanos. Seres de carne, osso e coração pulsando. E gente não é obra de ficção. Talvez, o distanciamento esteja nos deixando entorpecidos/as diante da dor cotidiana de tantas mulheres que, assim como Estamira, foram “esquecidas” pelo Estado.

No passado, os/as jornalistas eram como “a voz dos que não tinham voz”. Romantismos de lado: será que não deixamos, no mundo atravessado pela coisificação, de enxergar as pessoas como elas realmente são? Descartamos a nossa humanidade para observar a dor do outro como alegoria, acessório ou apelo para alguma reportagem? Será que a experiência do real pode ser tão chocante a ponto de nos fazer cegar diante da barbárie e seguir adiante como se estivéssemos acabado de sair de uma sessão de cinema?

Estamira está morta. Foi vítima da negligencia do Estado que ela denunciou no documentário. Um estado que oferece as costas para quem tem algum tipo de “transtorno mental”. Será tão difícil perceber que a nossa inoperância é reprodutora de várias expressões de loucura? Como se a luta infame pela sobrevivência em meio à ausência de direitos também não fosse responsável pela proliferação de tantas chagas nesse país.

Como nossa “personagem” dizia: “o mundo tá cheio de gente esperta ao contrário”.  Uma elite empresarial e política que prefere ignorar o extermínio feminino nas intermináveis filas para atendimento nos serviços públicos de saúde. Mulheres que perdem sua dignidade todos os dias, escravizadas pelo tráfico de seres humanos para fins de exploração comercial; Que sobrevivem do trabalho insalubre na agricultura, nas casas de farinha, ou nas extenuantes jornadas nas fábricas clandestinas dos centros urbanos; Que, assim como Estamira, ganham a vida catando dejetos nos aterros e lixões; Que não têm sua cidadania garantida quando recorrem às delegacias para denunciar a violência doméstica e o Estado, mais uma vez, não dispõe de centros de acolhimento; Que viram sua sanidade se esvair em meio à trágica relação entre feminização da pobreza e o avanço do tráfico e consumo das drogas.

Por mais que a nossa insensibilidade jornalística insista, elas não são personagens. Suas vidas miseráveis não poderão jamais ser transformadas em obras de ficção para mascarar o grotesco mundo real onde estamos mergulhados/as

Feminicídio: O nome do crime

Fonte:  Blog Quem o machismo matou hoje?

A tragédia de Realengo despertou um arsenal de questionamentos que servirá de pauta para preencher o dia inteiro da televisão por um doloroso tempo. Nos preparemos para ter na manhã com Ana Maria, na tarde com Sônia Abrão, nas noites com jornais nacionais e finais de semanas fantásticos, reportagens sobre os perigos do fanatismo religioso, as consequências do bullying, necessidade de maior proteção nas escolas, e, até mesmo, a superioridade física masculina que permitiu aos meninos escaparem do assassino que aparentemente estava atirando a esmo.

Mas não demorou muito para as crianças sobreviventes esclarecerem que ele atirava nas meninas para matar. Nos meninos, para machucar. Dito isso, as matérias passam aos pontos seguintes, agradecimentos aos policiais e história do assassino. Como ignorar relatos que o homem estava lá para matar apenas mulheres?

Proponho um exercício, vamos mudar uma palavra do discurso das testemunhas e sentir os efeitos: “Ele atirava nos negros para matar. Nos brancos só pra machucar.” Qual elemento novo que surge? Racismo, claro. Crime de ódio aos negros. Logo, o que aconteceu tem nome também. Não foi um crime voltado às crianças, foi Feminicídio. Crime de ódio às mulheres. Matou uma dezena que representa todas as mulheres da sociedade. Morrer pela cor da sua pele é mais revoltante do que morrer pelo sexo que carrega?

Todos os dias no blog relatamos casos de feminicídio no Brasil. O termo é mais comumente aplicado ao assassinato de mulheres resultante direto da violência doméstica e/ou sexista (até mesmo pela sua frequência). As “justificativas” para o ato são diversas: ela queria me deixar, ela não quis me beijar, ela não cozinhou o feijão. Mas a essência é uma só: homens que vêem mulheres (muitas vezes sem plena consciência disso) como seres inanimados e que existem unicamente para seu dispor, quando se recusam a essa condição ou não a exerce da forma como deveria, são descartadas.

O mesmo acontece com os estupros seguidos de morte. Uma vez cumprido o propósito, a vítima não mais merece viver, seja para não reconhecer o criminoso mais tarde, seja para completar o ritual de sadismo. Não tenho a intenção de aqui de simplificar crimes complexos como esses, apenas alertar para a recorrência e a sua natureza em comum: o machismo.

O machismo é uma doença social, um problema de todos. O feminicídio é o expoente máximo desse sistema de desigualdade de gênero, mas a sociedade inteira contribui para a sobrevivência dessa condição em outras atitudes, seja na conivência com violência doméstica, nos programas de televisão sexistas ou ensinando que azul é de menino e rosa é de menina.

A tragédia de Realengo é um exemplo ainda mais cru do que é o feminicídio. Em casos de violência doméstica o crime esbarra nas barreiras do privado, e nos estupros nos mitos da sexualidade humana e cultural. Nessa situação tudo está mais explícito. O autor do crime explicou seu alvo. Agora temos uma prova irrefutável, indigesta: dez meninas assassinadas pela arma de um homem que deixou bem claro qual era seu propósito. Feminicídio é o nome. Fe-mi-ni-cí-dio. Aprenda a usá-lo ou seja mais um a conviver com 10 cadáveres juvenis femininos debaixo do tapete. Do seu tapete.

Yo te violo, tú te callas

Fonte: Reporteros de Colombia


Históricamente los grupos al margen de la ley han utilizado el cuerpo de las mujeres como botín de guerra para causar daño a su enemigo. La violencia sexual en el conflicto armado en Colombia ha dejado miles de víctimas, sin embargo, el temor al machismo y a concepciones religiosas, la vergüenza y el desconocimiento frente a que se trata de un delito, no permite que las personas denuncien.

El 3 de agosto de 2003, en algún municipio del norte de Antioquia, los paramilitares protagonizaron otro hecho de barbarie que marcaría la vida de una pequeña de tan sólo 14 años. Ese día, Leidy iba para su casa en zona rural de esa localidad, cuyo nombre se omite por petición de ella.

Era costumbre de Leidy transitar por aquel camino en la montaña que la llevaba de la casa de una amiga a la suya. No había nada distinto en el lugar: los mismos potreros, la cuesta empinada en la montaña y el cielo encapotado, común en esta zona de Antioquia donde el frio se siente con fuerza. Era la 1 y 30 de la tarde y la neblina presente en el lugar sirvió de cómplice.

Allá donde yo vivía era tierra fría y todo estaba nublado. Cuando menos pensé, me encontré con los paramilitares. No me pareció extraño porque siempre se mantenían en la vereda. Yo seguí caminando y cuando iba pasando salieron detrás a cogerme. Salí corriendo pero se me fueron encima y uno de ellos me tiró contra un barranco.
Ahí comenzó la pesadilla para esta niña, quien hoy tiene 20 años, la mirada perdida y el dolor reflejado en su rostro. Leidy estaba acostumbrada a ver a los paramilitares. Acostumbrada también a sus insultos y atropellos.

Ellos llegaban a la casa y nos insultaban. Nos decían tantas cosas groseras que usted no se imagina. Nos empujaban, nos dañaban las cositas de la casa y se nos robaban lo que les llamara la atención: animales, ropa, cualquier cosa…..

Pero ese día fue diferente. Se le fueron encima fieras a su presa. No eran los insultos de siempre que ni ella se atreve a repetir, ni los empujones que antes padeció junto a sus padres en la finca, ni los atropellos que cometían cada vez que se sentían con derecho de llegar a la humilde vivienda.

Yo nunca pensé que me iba a pasar esto. Ellos eran muy agresivos con nosotros pero llegar a eso, no creí.

Recuerda Leidy con la voz entrecortada, atragantada por el dolor y la rabia que aun hoy, un poco más que siete años después, le surge cuando habla del tema, y es de anotar que pocas veces lo hace debido a la vergüenza que siente, como si hubiese sido culpable. Se aprieta las manos, mira de un lado a otro mientras intenta narrar lo que sucedió esa tarde del 3 de agosto de 2003.

Cuando me tiraron al barranco me empezaron a golpear. Me pegaron mucho y muy fuerte. Yo pensé que me iban a matar.

Después me amarraron y me taparon la boca. Yo tenía una sudadera y una chaquetica y me aferraba a ella con toda mi fuerza, pero ellos me arrancaron la ropa. Yo lo único que hacía era llorar y pedirles que no me hicieran nada. Lloraba y lloraba y más me pegaban. Me tapaban tan fuerte la boca con sus manos que no me dejaban casi ni respirar. Me desnudaron y con los fusiles me apuntaban, me amenazaban y me decían que me iban a matar.

Sentada en un sillón en la peluquería donde ahora trabaja, Leidy frota sus manos contra sus piernas mientras saca con esfuerzo cada palabra para narrar la barbarie a la que fue sometida. Ese día Leidy entró a formar parte de la larga lista de víctimas de violencia sexual que ha dejado el conflicto armado en Colombia.

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PLOA 2011 reduz recursos para combate à violência contra as mulheres

Fonte: CFEMEA

A execução orçamentária das ações na área de saúde que integram o II Plano Nacional de Políticas para as Mulheres é preocupante. Um dos exemplos é justamente a ação para implantação e implementação de políticas de atenção integral à saúde da mulher. Dos R$ 35,5 milhões autorizados no orçamentos de 2008, 2009 e 2010, apenas 55% foram efetivamente gastos e liquidados. Sendo que, até outubro de 2010, apenas R$ 460 mil dos R$ 9,5 milhões (4,8%) autorizados para o ano foram liquidados.

Enquanto os recursos caem, a violência contra as mulheres vai em direção contrária. A Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 registrou, de janeiro a maio de 2010, um aumento de 95,5% no número de atendimentos em comparação ao mesmo período do ano anterior. Foram 271.719 atendimentos, deles 51.354 relatos de violência. Os dados são reforçados pelo “Mapa da Violência – 2010. Anatomia dos Homicídios no Brasil”, do Instituto Sangari. Com base nos dados do DATASUS, o estudo mostrou que, de 1997 a 2007, 41.532 mulheres foram vítimas de homicídios. São mais de dez mortes por dia.

A própria Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres , que coordena o programa, reconhece que o montante é insuficiente. Em nota encaminhada a parlamentares, o órgão afirma que seria necessário um aporte de R$ 145,1 milhões para se chegar a um patamar adequado nesse programa.

A maior parte desse novo montante seria destinado para ampliação e consolidação da rede de serviços às mulheres vítimas de violência, entre os quais as Casas Abrigo e Casas de Acolhimento Provisório (Casas-de-Passagem). Esse locais, muitas vezes, são a única opção para que as mulheres beneficiadas por medidas protetivas, concedidas com base na Lei Maria da Penha, não voltem para o convívio de seus agressores. Nesse caso, garantir mais dinheiro no orçamento, fortalecendo essa ação, é contribuir para romper o ciclo de violência a que essas mulheres estão submetidas e, em última análise, evitar que elas morram.

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Enfrentamento à violência contra a mulher mobiliza Pernambuco

O Dia Nacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher é comemorado no dia 25 de novembro. Organizações de mulheres do Grande Recife e Zona da Mata realizarão, nesta quinta-feira, 25, atividades educativas, de sensibilização e atos públicos a partir das 7h. As mobilizações têm como objetivos difundir a Lei Maria da Penha, sensibilizar a população para o enfrentamento da violência sexista, reivindicar políticas de prevenção e combate à violência de gênero e estimular as mulheres a romperem com o ciclo de violência.

Um levantamento realizado pelo Fórum de Mulheres de Pernambuco revelou problemas no acesso à justiça e na rede de atenção às mulheres vítimas de violência, o que dificulta a defesa dos direitos. (confira programação abaixo) “ Em Blitz, uma visita de surpresa aos serviços de atendimento à violência contra as mulheres, que o FMPE realizou no mês de outubro, constatamos problemas inaceitáveis como delegacias que exigiam que a mulher apresentasse duas testemunhas para poder registrar a denúncia. Isso é um absurdo, pois nem a lei exige testemunhas”, afirma Joana Santos, educadora do SOS Corpo e integrante do Fórum de Mulheres de Pernambuco.

Definido no I Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe, realizado em 1981, em Bogotá, na Colômbia, o Dia de Enfrentamento à Violência contra a Mulher foi escolhido para lembrar as irmãs Mirabal (Pátria, Minerva e Maria Teresa), assassinadas pela ditadura de Leônidas Trujillo na República Dominicana. Em 25 de novembro de 1991, foi iniciada a Campanha Mundial pelos Direitos Humanos das Mulheres, sob a coordenação do Centro de Liderança Global da Mulher, que propôs os 16 Dias de Ativismo pelo fim da Violência contra as Mulheres, que vão de 25 de novembro até 10 de dezembro, data de aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948).

Confira a programação

RECIFE

7h – Alvorada no Morro pelo Fim da Violência contra as Mulheres Local: Praça em frente à igreja Nossa Senhora da Conceição, no Morro da Conceição. Organização: Fórum de Mulheres de Pernambuco

10h – Passeata pelo Fim da Violência contra a Mulher Local: Concentração sede da ONG Gestos, na Boa Vista, em direção aos Coelhos. Organização: ONG Gesto

17h – Vigília pelo Fim da Violência contra a Mulher Local: Concentração e saída do Cinema São Luiz, na Boa Vista. Organização: Fórum de Mulheres de Pernambuco

OLINDA

17h às 19h – Ato público na Praça da Maxabomba. Local: Ao lado da agência dos Correios, no Carmo Organização: Coletivo Mulher Vida

CABO DE SANTO AGOSTINHO

6h às 8h – Panfletagem Local: Terminal Integrado de Passageiros do Cabo Organização: Centro das Mulheres do Cabo

9h às 12h – Distribuição de material educativo da “Campanha dos 16 dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher” Local: Agências bancárias, empresas públicas e privadas e transportes urbanos do Cabo de Santo Agostinho Organização: Centro das Mulheres do Cabo

ZONA DA MATA SUL

13h30 – Oficina e ato público sobre enfrentamento à violência contra a mulher Local: Espaço Cultural Água Viva, no Centro de Água Preta. Organização: Articulação de Mulheres da Mata Sul